Corujas e morcegos

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Espiral

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Uma espiral é:


Uma estrutura óssea que, com nojo de penetrar no molusco a que pertence, opta por enrodilhar-se em torno de sua carne gosmenta.

Wilden Barreiro


“Subproduto inteiriço da casca auto-descascada a canivete
por uma laranja egocêntrica.”

Anga Mazle


“Uma linha reta que perdeu-se de si e anda em círculos, cada vez 
mais distante do que foi e mais próxima do que não pode ser.”

Tuca Zamagna


“A alma metálica dos relógios, brinquedos e seres humanos de corda.”

Elza Magna


 “A representação radiográfica do redemoinho de sentimentos 
que mora de favor no coração de toda mulher.”

Teophanio Lambroso


“Um soluço e a vontade de ficar mais um instante...
debaixo dos caracóis dos seus cabelos.”

Roberto Carlos


“Qualquer curva plana gerada por um ponto móvel que gira 
em torno de um ponto fixo, ao mesmo tempo que dele se 
afasta ou se aproxima segundo uma lei determinada.”

Aurélio Buarque de Holanda


“Uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.”

Bernardo Soares / Fernando Pessoa

\ô/

Obrigado ao Teophanio, que sugeriu esta postagem coletiva, mandou a sua definição, cobrou a de seus parceiros do blog Desinformação Seletiva e ainda lembrou-me da definição do Roberto Carlos.
Os leitores que quiserem dar a sua definição para espiral (não é difícil, até o Aurélio conseguiu fazer uma que não é ruim de todo!), por favor, façam-no e enviem para mim.
O assunto, vital para o futuro da humanidade, justifica plenamente uma segunda postagem. E até mesmo, se a adesão for expressiva, a publicação de uma “Antologia de Definições para Espiral”.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Volte


. . . . . Volte

. . . . . Não precisa mais temer a minha liturgia de picadeiro:
. . . . . o meu desprendimento em virar capacho ou cometas
. . . . . e meus silêncios colorais colhidos no sono da passarada

. . . . . Volte

. . . . . Não mais serei o homem dos sete instrumentos e um receio
. . . . . (que renega os sete e ainda toda possibilidade do impossível)
. . . . . nem mais o malabarista de mal-amares dos malas de bares

. . . . . Volte

. . . . . E entregarei a Deus toda a culpa do menino que prevaricava
. . . . . durante a missa levantando até o sexo a fantasia das santas
. . . . . e ao Diabo a memória dos doces pecados por elas prometidos

. . . . . Volte

. . . . . Pois serei somente a sede de água tépida que só sacia em seus
. . . . . mares bipolares tropicalizados por meus mergulhos de cabeça
. . . . . tronco e membros d’alma em brasa para sempre desde que você

. . . . . Volte

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estofo

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Trinca estripa tritura desintegra
este trambolho que me corrói o peito,
meu lastro
de galeão naufragado na montanha,
tão cândido carcinoma no seio
da pedra
quanto brutal espinha no nariz
da flor.
.
Trinca estripa tritura desintegra
toda dor que não me doa bem fundo,
qualquer disposição de me queixar
ao guarda à mãe ao bispo porém nunca
ao Diabo.
.
Trinca estripa tritura desintegra
a tua recompensa, louco Amor:
a provação de carregar por mim
meu oco
estofamento de fome que mofa
passo de passarinho,
samba de sambambaia,
vôo de vozes avozinhas
e a bem lambida nua libido lua
do sol.

domingo, 10 de abril de 2011

Terra


                                                                Seu Juca Sem Fio
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Você escolhe a terra 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..eu planto a semente
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Você semeia a noite
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..eu anoiteço o olhar
 .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Você olha a chuva 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..eu chuvisco nuvens
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Você nubla as luzes
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..eu ilumino as águas
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Você agua o começo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..eu recomeço do fim
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Você finaliza o nada
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..eu nado nos sonhos
.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..Você sonha escolhas
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ..eu escolho a terra
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sábado, 9 de abril de 2011

Sombrio como a luz


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . "A pé e de coração leve,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . lanço-me à estrada aberta,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Saudável, livre, o mundo à minha frente,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O chão à minha frente, vasto e sombrio,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . levando-me aonde eu bem queira."

. . . . . . . . . . . . . Afoot and light-hearted, I take to the open road,
. . . . . . . . . . . . . Healthy, free, the word before me,
. . . . . . . . . . . . . The long brow path befome me, leading wherever I choose.

\ô/ . . . .

Traduzi esta primeira estrofe do longo poema Song of the Open Road, que integra o mais famoso livro de Walt Whitman, Leaves of Grass. Para me animar a prosseguir no trabalho, mostrei-a ao Teophanio Lambroso, que comentou, com a sutileza costumeira: "Por que diabos você tem de ver escuridão em tudo, seu bacurau pacóvio?"

(Não reparem, tio Teo é assim mesmo. Acha o luar, por exemplo, uma pobreza: "Coisa de quem compra lâmpadas de 40 watts porque não precisa ler à noite. A lua é o sol dos analfabetos.")

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Rabo de lagartixa


Será um
poema tão denso e coeso
que se dele eu desmembrar
as três estrofes iniciais
cada uma terá novo sentido
– completo, redondo, primal –
 porém, a conservar, latente,
a ligação visceral com o todo.

.E a estrofe derradeira,
solibunda, ecoará como
aforismo órfão, surreal,
ligada ao corpo do poema
só por tara atávica: rabo
de lagartixa a rebolar,
possesso pelo sem sentido
(a)parente? (tran
s)parente?
de uma sobrevida sem pé

nem cabeça nem sexo.
 
\ö/
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1- Este texto, na verdade, nasceu (ou ressuscitou) de comentário a um intrigante poema de Diogo Liberano que li há séculos (ontem à tarde) no blog 'Plantando Livros e Escrevendo Árvores' (ou algo nessa linha), aqui

2 - Não estou certo de que a imagem acima seja mesmo a de um rabo de lagartixa. Pode ser também o rabo de um girino, de um tamanduá, pangolim, água-viva, ramster, uirapuru, mulher-melancia... Como vou saber, se nunca me atrevi a apalpar glúteos de ortópteros e platelmintos?
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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Descascando


 .
Dentre as expressões abaixo, qual é a mais vazia?

MIOLO DO NADA. . .   .  CORAÇÃO OCO. . .   . .VAGINA DE ANJO


Para conferir a .RESPOSTA , você ou o seu monitor deve plantar bananeira.
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terça-feira, 5 de abril de 2011

Faca


 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  O brilho da lâmina
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  é tão forte quanto
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  a vontade do cabo.

 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  O grito da ponta
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  da lâmina é mais
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   agudo e profundo
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  que o do fio de corte.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   O vulto que traga
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   por inteiro a lâmina  
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   emenda o seu fim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   ao destino do cabo.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   É escuro e deserto
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   o silêncio da faca.

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domingo, 3 de abril de 2011

Não me diga o que vê


. . . . . . . . . . . . . . Eis meu rosto, meus traços
. . . . . . . . . . . . . . vedados ao meu próprio olhar;
. . . . . . . . . . . . . . meu estar em mim, tão-somente
. . . . . . . . . . . . . . diante do espelho do olhar alheio,
. . . . . . . . . . . . . . meu estar perdido na escuridão
. . . . . . . . . . . . . . que não semeei; minha sorte
. . . . . . . . . . . . . . de condenado a esta vida tosca,
. . . . . . . . . . . . . . planejada e erigida por um deus
. . . . . . . . . . . . . . de pedra, uivos e esquecimento,
. . . . . . . . . . . . . . ébrio sátiro que habita e consome
. . . . . . . . . . . . . . a consciência que me imputou
. . . . . . . . . . . . . . como asas que não voam, como
. . . . . . . . . . . . . . caminhos que não terão rastros.
 .

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Suruba cívica


(De O Maracangalhudo e sucursais)....
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Uma récova de altas patentes militares remanescentes do Golpe de 64 resolveu dar sua contribuição à campanha pelo resgate da verdade histórica no período ditatorial. Reunidos em seu atual quartel-general, o Asilo Direita Volver!, os generais de pijama decidiram oficializar a data verdadeira da quartelada: 1o de abril – em vez do ilegítimo e já surrado 31 de março.

A notícia foi divulgada no final da noite de ontem pelo embaixador-comandante-em-chefe da tropa de micróbios – digo, macróbios ­–, deputado federal Jair Bolsonaro, que informou ainda:

– Para comemorar a nova data promoveremos amanhã (hoje) um grande rebuceteio patriótico, familiar e cristão. Estão convidados a participar todos os brasileiros e sobretudo as brasileiras, exceto os negros, pardos, paraíbas, ateus, maconheiros, esquerdistas e centristas de um modo geral, viados, sapatões e pobres.
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quinta-feira, 31 de março de 2011

Cerâmica sexual

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 .
 . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .Da argila tirou um pedaço
 . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .e fezô’.. E desse ô’ tirou
 . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .um pedaço e fez ‘ä’..Então
 . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .pegou o resto da argila e o
 . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .levou com ‘ô’ e ‘ä’ ao forno.
 . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .E desejou, sem medo ou cu-
 . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .lpa: 'Seja o que Eu quiser.'

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quarta-feira, 30 de março de 2011

Boca a boca


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. . . . . . . . . . . . . . . . . Na carne, no osso
. . . . . . . . . . . . . . . . . A dor vai penetrando
. . . . . . . . . . . . . . . . . Quem sentirá, tanto como eu, minha agonia?
. . . . . . . . . . . . . . . . . Delírio de velha
. . . . . . . . . . . . . . . . . Visão ou lembrança
. . . . . . . . . . . . . . . . . Ah, como fui jovem
. . . . . . . . . . . . . . . . . E amei demais a vida.

. . . . . . . . . . . . . . . . . Estou sozinha na cama fria
. . . . . . . . . . . . . . . . . Meu corpo arde na lenta espera
. . . . . . . . . . . . . . . . . Estou sozinha na cama, na vida
. . . . . . . . . . . . . . . . . Estou sozinha diante da morte.
. . . . . . . . . . . . . . . . . É o medo, é o frio
. . . . . . . . . . . . . . . . . Nas juntas, nos nervos
. . . . . . . . . . . . . . . . . Quem me dará forças
. . . . . . . . . . . . . . . . . Para ver o fim de tudo?

. . . . . . . . . . . . . . . . . Eu tenho fé no mundo e nos homens
. . . . . . . . . . . . . . . . . Eu tenho fé nesta louca aventura
. . . . . . . . . . . . . . . . . Eu quero sim este ar que me falta
. . . . . . . . . . . . . . . . . Eu quero sim respirar boca a boca, amar.

. . . . . . . . . . . . . . . . . Nas juntas, nos nervos
. . . . . . . . . . . . . . . . . Quem te dará forças
. . . . . . . . . . . . . . . . . Para ver o fim de tudo?
 .
  
Esta canção, umas das mais belas e certamente a mais sombria da dupla Milton Nascimento/ Fernando Brant, não ‘tocou no rádio’. Milton a incluiu no disco Maria Maria/ Último trem (1975), mas não a ‘trabalhou’ nem em shows. No ano seguinte, Nana Caymmi registrou sua versão – imbatível, antológica!  - no LP Renascer.

A música é tão boa, tão sofisticada (com Brant em estado de graça demoníaca!) que, claro, não se encontra no Youtube. Achei a letra em diversos sites, mas não a gravação. Em alguns, acompanha a letra um vídeo em que Nana canta 'Cala a boca menino'. Então... cala a boca, menino(a), e tenta ouvir por aí, de preferência na voz de Nana, a velha ainda a gemer de tesão pela vida na hora da morte!

 (A foto – em cores invertidas – é da escultura ‘O Beijo da Morte’, instalada em 1930 numa sepultura do Cemitério de Barcelona.)