Corujas e morcegos

sexta-feira, 16 de março de 2012

Afeto de armar


Que alguém (inclusive eu?) poderia musicar.  .
 
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Em que hora nós deixamos de sentir
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Esse chão que nossos pés nunca pisaram
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Voando assim por entre sonhos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Remansos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Que o tempo foi plantando pelas nuvens
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Tontas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Como a vida a nossos pés?

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Por que espero que entendas o que sinto
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Me arrastando em teu deserto de palavras
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Catando e ouvindo tuas conchas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Em vão
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Me prendendo e cantando tuas fugas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Longas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Infinitas ao eterno?

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Como esperas que eu entenda o que sentes
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Se me apanhas nesse afeto de armar
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Quebra-caba de assombros
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . E brancos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Indo em frente e me deixando em teus refúgios
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Onde
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Só se abriga o que não és? 

domingo, 11 de março de 2012

Dono


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  Para a mulher que me quiser musicar e cantar

. . . . . . . . . . . . . . .  Se eu mentir
. . . . . . . . . . . . . . .  Acredita em mim
. . . . . . . . . . . . . . .  Estarei sendo sincera
. . . . . . . . . . . . . . .  Tudo
. . . . . . . . . . . . . ..   Que eu sonho inventar
. . . . . . . . . . . . . . .  Pra nós dois será assim:
. . . . . . . . . . . . . . .  A verdade que esperas
. . . . . . . . . . . . . . .  Dono
. . . . . . . . . . . . . . .  Desse avesso amor que sinto.

. . . . . . . . . . . . . . .  Se eu fingir
. . . . . . . . . . . . . . .  Que não tô a fim
. . . . . . . . . . . . . . .  Vem e toma o que quiseres
. . . . . . . . . . . . . . .  Mudo
. . . . . . . . . . . . . . .  Como esse teu olhar
. . . . . . . . . . . . . . .  De me ver além de mim
. . . . . . . . . . . . . . .  E acalmar meus infernos
. . . . . . . . . . . . . . .  Dono
. . . . . . . . . . . . . . .  Desse falso amor que finjo.
 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Era mesmo você?



Era mesmo você que vinha vindo
em minha direção, naquela tarde
de maio, quando perdi a direção?

Eram seus os olhos que me viam
caminhar no instante em que perdi
a passada ao me perder de vista?

Quanto do que senti por você
tão intensamente aquele dia
é hoje, na memória esgarçada,

o que era você ou o que sou eu?
 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Universo



Eram dois
apenas dois
mas se tornavam mil,
milhões de sensações
intensas, sublimes,
cada vez que eu os tocava
com as mãos,
assim como cada um deles
me descortinava o infinito
se eu o tinha quase todo na boca.

Eram isso
(dois versos
universo)
os delicados
seios seus.
.
Catei a imagem no blog da minha leitora número 1, Tânia Contreiras, que a usou há meses para ilustrar uma bela crônica sobre o romance Viagem aos Seios de Duília, de Aníbal Machado, livro inesquecível para mim também.


sábado, 21 de janeiro de 2012

De bicicleta

 
Enquanto tu descias ruas
e avenidas sem horizontes
para mim, como tanto beco
que lhe trouxe meu caminhar,

não pude ver a bicicleta
em que seguias, soberana,
como num trono pedalável
ante o qual eu só existisse

de joelhos, de mãos e de cara
no chão que tentei ser na vida
por ti criada para seguirmos
até muito além do horizonte.

E nenhuma vez pedalaste
pelos caminhos que aprendi,
a me negar que rumo fosse
qualquer rumo já conhecido.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ÁGUA-FRACA



Des) encontro entre Goya e Bandeira

. . . . . . . . . . . . . . . . . O branco no preto,
. . . . . . . . . . . . . . . . . A pele nos dentes:
. . . . . . . . . . . . . . . . . Ânimo empalhado,
. . . . . . . . . . . . . . . . . Papel quase preto.

. . . . . . . . . . . . . . . . . No fundo da pele,
. . . . . . . . . . . . . . . . . A fera na jaula
. . . . . . . . . . . . . . . . . Do medo dos medos.
. . . . . . . . . . . . . . . . . Cinzas, gelo ou pântano?

. . . . . . . . . . . . . . . . . À flor do concreto,
. . . . . . . . . . . . . . . . . As garras rendidas
. . . . . . . . . . . . . . . . . A esperar os últimos
. . . . . . . . . . . . . . . . . Suspiros de vida.

. . . . . . . . . . . . . . . . . Nada é loucura
. . . . . . . . . . . . . . . . . Sob a sonolência
. . . . . . . . . . . . . . . . . Da água-forte fútil:
. . . . . . . . . . . . . . . . . Sonho em linha reta
. . . . . . . . . . . . . . . . . Aborta o poeta.


Que Manuel me perdoe a paródia, turva e nada sensual, ao seu cristalino e sensualíssimo ÁGUA-FORTE. E Francisco, a releitura, nos dois versos finais, da inscrição contida em sua sombria mas luminosa água-forte.

O poema e a imagem originais:
 
ÁGUA-FORTE
.
 
Manuel Bandeira . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . O preto no branco,
. . . . . . . . . . . . . . . . . O pente na pele:
. . . . . . . . . . . . . . . . . Pássaro espalmado,
. . . . . . . . . . . . . . . . . No céu quase branco.

. . . . . . . . . . . . . . . . . Em meio do pente,
. . . . . . . . . . . . . . . . . A concha bivalve
. . . . . . . . . . . . . . . . . Num mar de escarlata.
. . . . . . . . . . . . . . . . . Concha, rosa ou tâmara?

. . . . . . . . . . . . . . . . . No escuro recesso,
. . . . . . . . . . . . . . . . . As fontes da vida
. . . . . . . . . . . . . . . . . A sangrar inúteis
. . . . . . . . . . . . . . . . . Por duas feridas.

. . . . . . . . . . . . . . . . . Tudo bem oculto
. . . . . . . . . . . . . . . . . Sob as aparências
. . . . . . . . . . . . . . . . . Da água-forte simples:
. . . . . . . . . . . . . . . . . De face, de flanco,
. . . . . . . . . . . . . . . . . O preto no branco.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Cardiopatia



 Na aula de biologia
a tarefa era dissecar um sapo,
expor e examinar-lhe as vísceras.

Fui bastante além
e retalhei o batráquio –
ridículo com o paletó aberto ­–
até virar picadinho,
porque não achei seu coração.

Nem ele, o meu.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Breve inventário anatômico



Este fígado em frangalhos é meu.
Nem mesmo de vista o conheço,
mas reconheço a dor e as vezes
do bico cravado dos abutres.

Minhas, estas asas de coração.
Nunca as vi, nunca o vi voar,
porque cegou-me sempre
toda paixão que me viveu.

Este mingau derramado, meu cérebro,
poça de pensamentos impensáveis,
máxima fortuna amealhada
que ninguém quis ouvir e cobiçar.

Meus, estes grandes lábios vulvares,
sombra e bainha do feminino aríete
que Deus não quis e o Diabo me deu
para ser fêmea cada vez que fui macho.

E ainda estas minhas mãos cheias
do vasto vazio escrito por meus pés
enquanto eu garimpava mundos e fundos
no caos dos corpos do meu corpo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O que viveu meia hora



Ser*

Carlos Drummond de Andrade  .  .

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
Faz-se por si mesmo.

*Em Claro Enigma.

--  0  --

Anotações do poeta
(ambas assinadas por extenso)

I

Meu filho Carlos Flavio nasceu às 4 horas e 15 minutos do dia 21 de Março de 1927, segunda-feira. Deus o proteja em toda a sua vida.

21­ - III – 27  --  às 4 e 35 da tarde.

II

Meu filho Carlos Flavio morreu às 4 horas e 45 minutos do dia 21 de Março de 1927, segunda-feira

21­ - III – 27  --  às 10 horas da noite.

--  0  --

O que Viveu Meia Hora*

Carlos Drummond de Andrade  .  .

Nascer para não viver
só para ocupar
estrito espaço numerado
ao sol-e-chuva
que meticulosamente vai delindo
o número
enquanto o nome vai-se autocorroendo
na terra, nos arquivos
na mente volúvel ou cansada
até que um dia
trilhões de milênios antes do juízo final
não reste em qualquer átomo
nada de uma hipótese de existência.

*Em A Paixão Medida.