Corujas e morcegos

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Breve inventário anatômico



Este fígado em frangalhos é meu.
Nem mesmo de vista o conheço,
mas reconheço a dor e as vezes
do bico cravado dos abutres.

Minhas, estas asas de coração.
Nunca as vi, nunca o vi voar,
porque cegou-me sempre
toda paixão que me viveu.

Este mingau derramado, meu cérebro,
poça de pensamentos impensáveis,
máxima fortuna amealhada
que ninguém quis ouvir e cobiçar.

Meus, estes grandes lábios vulvares,
sombra e bainha do feminino aríete
que Deus não quis e o Diabo me deu
para ser fêmea cada vez que fui macho.

E ainda estas minhas mãos cheias
do vasto vazio escrito por meus pés
enquanto eu garimpava mundos e fundos
no caos dos corpos do meu corpo.

14 comentários:

  1. Wilden, tua poesia vai nas minhas vísceras, tem um quê desse sujeito indidizível que jaz em mim...Tua poesia é forte e me rasga. Camarada, você é um poeta e tanto!
    Beijos,

    "Minhas, estas asas de coração.
    Nunca as vi, nunca o vi voar,
    porque cegou-me sempre
    toda paixão que me viveu."

    ResponderExcluir
  2. "Meus, estes grandes lábios vulvares,
    sombra e bainha do feminino aríete
    que Deus não quis e o Diabo me deu
    para ser fêmea cada vez que fui macho."

    Preciosos versos masculinos não machistas, cara!
    O poema todo é brilhante!!!

    Um abração

    ResponderExcluir
  3. Seu estilo é unico, Will, e eu o adoro (ele e você!)

    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Wilden, lindo - como sempre!!! Mas, é claro, a última estrofe é a que mais me tocou.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  5. Wilden, amei o poema também. Há uma dor universal que o habita e sai tingindo nossas vidas com lembranças do que passou e do que virá. Há uma força nas imagens e na música que sai de cada palavra. O desconhecido parece tão familiar. Um beijo!Parabéns!

    ResponderExcluir
  6. Vc conseguiu fazer poesia com corpo do lado avesso de maneira brilhante!
    Os poetas sempre falam a parte vista,e vc foi bem mais fundo.
    Poeta ilimitado.Adorei!!!
    Bom fds,bjka

    ResponderExcluir
  7. q poesia tem na bixiche? vcs gays pensam q viver é fazer o que vcs fazem e que isso é q ta certo. enfia seus grandes lábios no cú, otaria!!! kkkkkkkk

    ResponderExcluir
  8. Fascinada com tua maneira de esclarecer a poesia... vou ficando!

    Beijinho com admiração!

    ResponderExcluir
  9. toda a anatomia do corpo pela alma
    ...


    forte abraço,
    camarada.

    ResponderExcluir
  10. "no caos dos corpos do meu corpo."

    O caos maior baixa na hora de administrar o pagamento das roupas dessa corja toda, né?

    ResponderExcluir
  11. Parabéns, um HOMEM! Sua hombridade e sensibilidade comoveram a "bixa" aqui.

    Beijinhos

    ResponderExcluir
  12. eleonora marino duarte17 de novembro de 2011 11:23

    wilden,

    a tania já disse, mas eu repito, tua poesia atinge-nos.

    agora sobre o caos foi um assombro! excelente!!!

    um beijo, querido.

    ResponderExcluir