Corujas e morcegos

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ela, às vezes eu

.


I

As horas, minha sombra
sempre diz com precisão.
Mas ouvidos só lhe dou
quando a piso por inteiro:
ao meio-dia em ponto.


II

Sombra de mim, és sobra
do outro que sempre sou
a cada passo que dou
no que de mim sossobra.


III

Fotografam-me de pé
e revelam-me no chão.
Enquadram-me sentado,
na foto eis-me no chão.
Deitado, sim, é que surjo
lógico, na horizontal,
embora justo embaixo

de mim que lá não estou.

Mas no espelho, a sós
comigo, sou onde estou,
ainda que seja ainda
minha maldita sombra
que no aço se estampa.

Somente em radiografias
saio sempre bem: 
é quando revela-se
o exterior do meu próprio eu
livre dessa sombria

víscera que me segue, à espera 
de outros corpos meus
para invadir e comandar.
 

19 comentários:

  1. em radiografia, abreugrafia, caligrafia


    abraço

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  2. Uau, saudade de te ler...E chegou assim mexendo também nos meus tantos eus. Continua afiado, poeta. E eu, fã, sempre.
    Beijos,

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  3. E por que o poeta estava parado? Não responda, eu entendo. A gente para para prestar atenção em outros focos ou para negar a prosa, a palavra, o poema, ou, para por parar, como se as palavras não existissem mais. Há momentos também para nos perdermos e nos acharmos em nossas sombras. Eu também me reconheço por dentro. Quanto mais velha, mais transparente. Um dia, todos poderão ver que não tenho mais apêndice, nem vesícula, que tive hepatite quando criança... de tão transparente estarei.

    A partir de hoje, irei receber teus posts via e-mail. Que bom!

    Beijos,

    Suzana Guimarães - Lily

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    1. terei de postar mais, bem mais, só pelo prazer e a honra de... entupir sua caixa de e-mails, Suzana.
      beijos

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  4. Sua sombra é um assombro, Wilden!

    Abraço

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    1. agradeço em nome dela, Aloisio, servo capacho que dela sou.
      abraço

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  5. Maravilhoso, Wilden. Andava com saudade de te ler. Vê se não fica mais tanto tempo sem postar.
    Beijo

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    1. sim, senhora!
      seu pedido é uma ordem.
      hoje mesmo postarei alguma coisa, nem que seja a bula do meu desodorante pra chulé!
      beijo

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  6. Merece complascência a sombra que, por mais rasteira que tente, não consegue nos derrubar.

    Belo poema, sobretudo pelo assombroso engenho da parte III!

    Abraço.

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    1. pior que ela me derruba, Marcantonio.
      e muito!
      mas eu não quis falar disso no poema.
      há que se preservar o mínimo de dignidade, não posso dar esse gostinho a mais a ela, né?
      "assombroso engenho"? poxa, isso vindo de você, mestre da engenhosidade poética, é de se tirar o chapéu -- e dele, borboletas iluminadas de vaidade!
      abraço

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  7. Como sempre maravilhoso! Saudades! Um grande abraço!

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    1. obrigado, querida.
      saudades, também.
      faz tempo que não lhe faço uma visitinha, né?
      um grande beijo!

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  8. E assim AS SOMBRAS SÃO.
    Lindo poema.
    Um abraço

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  9. Wilden,

    faz um favor para mim?
    me lembre de vir aqui sempre...
    preciso receber as suas postagens, como faço???

    belo foco sobre as sombras!


    um beijo.

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  10. Andei vagueando por aqui e gostei do que li!
    Resolvi seguir.
    Maria Emília

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  11. ...e por essas sombras me encontro.


    abç

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