Corujas e morcegos

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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cegos




Os meus sonhos no teu sono
tuas vísceras no meu medo
nosso ímpeto à nossa espera

Tua raiva em meus gritos
meus silêncios em teu tédio
nosso adeus à nossa volta

Todo desejo pelo avesso
cada querer no sem querer
o encontro em nossas fugas

Cegos que fingem não ver.



segunda-feira, 2 de abril de 2012

Onde?


Onde riscas o céu como
brilho do seu onde olhas
tanto mel quando bebes
um cometa que sabe
aluar porque sonhas
mar onde raios estás
como luz onde breu
como fogo onde apagas
todo chão onde voas
feito som onde sou
quando estás?

sexta-feira, 16 de março de 2012

Afeto de armar


Que alguém (inclusive eu?) poderia musicar.  .
 
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Em que hora nós deixamos de sentir
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Esse chão que nossos pés nunca pisaram
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Voando assim por entre sonhos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Remansos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Que o tempo foi plantando pelas nuvens
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Tontas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Como a vida a nossos pés?

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Por que espero que entendas o que sinto
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Me arrastando em teu deserto de palavras
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Catando e ouvindo tuas conchas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Em vão
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Me prendendo e cantando tuas fugas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Longas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Infinitas ao eterno?

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Como esperas que eu entenda o que sentes
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Se me apanhas nesse afeto de armar
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Quebra-caba de assombros
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . E brancos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Indo em frente e me deixando em teus refúgios
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Onde
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Só se abriga o que não és? 

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Era mesmo você?



Era mesmo você que vinha vindo
em minha direção, naquela tarde
de maio, quando perdi a direção?

Eram seus os olhos que me viam
caminhar no instante em que perdi
a passada ao me perder de vista?

Quanto do que senti por você
tão intensamente aquele dia
é hoje, na memória esgarçada,

o que era você ou o que sou eu?
 

domingo, 25 de setembro de 2011

Elas


Para Marcantonio

O chato de ser ateu
e morar somente
com a minha mania

é não ter quem mande
calar a boca quando falo
para as paredes frias.
 
O que me salva são
as vozes, 
. . . . . .  . . . . . . incontroláveis,
da minha esquizopoesia.

sábado, 25 de junho de 2011

A Senhora dos Sonhos



O sonhador não acredita
que a noite desagüe no dia
e se apague e apague os sonhos.

O sonhador é senhor do tempo
enquanto o tempo permite
que seus sonhos sejam infinitos.

O sonhador só experimenta
parar de sonhar quando
do alto ecoa o choro da Suidara.

É lá, no oco dos telhados,
que a finitude do sonhar
é tecida em lágrimas pela não-deusa,

a criadora de tudo em nada,
a artífice da vida maior que
só pode ser vivida nos sonhos.
.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Educação artística



Antônio Rebouças Falcão*

Sempre beber o vinho do copo vazio.
E observe as marés do mar ausente.
Sempre contemplar a lua no asfalto noturno.
E fume o silêncio das vozes distantes.
Sempre tomar do acaso o que ele não nos pode negar.
E goze a sombra que não se dá a ver.
Sempre abraçar a alma calada em desesperança.
E esteja em companhia da solidão mais constante.

Nunca costurar sua morte a quatro mãos.
Deixe com ela o que dela é.

\ô/

*O poeta atende no Dilema Paulistano. A ilustração é um detalhe do cabeçalho do blog, desenhado pelo próprio Antônio Falcão.


domingo, 15 de maio de 2011

Perdedor de Sá




. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Comigo me desavim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sá de Miranda

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Comigo me desavim,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sou posto em todo perigo;
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Não posso viver comigo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Nem posso fugir de mim.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Com dor, da gente fugia,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Antes que esta assim crescesse:
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Agora já fugiria
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . De mim, se de mim pudesse.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Que meio espero ou que fim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Do vão trabalho que sigo,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pois que trago a mim comigo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Tamanho imigo* de mim?

. . . \ò/ . \ó/

Francisco de Sá de Miranda – mormente por este poema e pelo soneto “O sol é grande” – é bem conhecido de todos que apreciam a literatura em língua portuguesa. Mas postá-lo aqui no blog era obrigatório, pois o poeta abriu-me horizontes novos e amplos desde que o li pela primeira vez, no final da adolescência. Não dei-lhe muita bola no primeiro momento, por julgar tratar-se apenas de mais um poetinha que gostava de Fernando Pessoa, como eu (ou eus). Só depois fiquei sabendo que o Sá vivera quatro séculos antes do Pessoa. E tal informação me estarreceu: um gajo falando do eu (ou eus) na época em que tema poético eram as grandes peripécias náuticas lusitanas, os bastidores da corte, os costumes bizarros do povaréu e, claro, o tal do amor? Depois, também, fiquei sabendo que este de Sá, reles poeta e professor, era irmão do de Sá VENCEDOR, o Mem, terceiro Governador-Geral do Brasil, cujo grande feito foi ter botado os franceses para correr (no colo dos Tamoio) e transferido para o Morro do Castelo a cidade maravilhosa fundada por seu sobrinho Estácio. Mem de Sá, aliás, assumiu o Governo-Geral do Brasil em janeiro 1558, três ou quatro meses antes (há controvérsias sobre a data) da morte do poeta. A Sá de Miranda, a poesia portuguesa deve a introdução de várias formas poéticas trazidas por ele da Itália, dentre elas o verso decassílabo, metro com que Camõe se consagraria  n’Os Lusíadas. Deve a arte portuguesa à Sá, ainda, a primeira crítica sistemática – e pública – ao dramaturgo e poeta Gil Vicente, e essa dívida é filha de uma outra, contraída e paga, com juros pesados, pelo próprio poeta, ao comprar um inimigo (ou *imigo, forma também usada na época) poderosíssimo. Os desgostos decorrentes dessa inimizade é que teriam levado Sá de Miranda a “exilar-se” no campo, deixando sua Pasárgada – ­Coimbra ­–, onde era amigo do rei (D. João III).

domingo, 1 de maio de 2011

Ela, às vezes eu



I

As horas, minha sombra
sempre diz com precisão.
Mas ouvidos só lhe dou
quando a piso por inteiro:
ao meio-dia em ponto.


II

Sombra de mim, és sobra
do outro que sempre sou
a cada passo que dou
no que de mim sossobra.


III

Fotografam-me de pé
e revelam-me no chão.
Enquadram-me sentado,
na foto eis-me no chão.
Deitado, sim, é que surjo
lógico, na horizontal,
embora justo embaixo

de mim que lá não estou.

Mas no espelho, a sós
comigo, sou onde estou,
ainda que seja ainda
minha maldita sombra
que no aço se estampa.

Somente em radiografias
saio sempre bem: revela-se
o exterior do meu próprio
eu, livre dessa sombria

víscera que me persegue.
.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

tanto tantos



da sombra

(de nossos tantos corpos sempre um só) deitada
por tanta luz de tardes, noites e manhãs

ao medo

de que a mim tu me afogasses de tanta sede
do quanto tantas vezes em ti eu virei mar

de sangue

que azul verteste a cada mês por tantas luas
com tanto filho teu a que neguei o sol e dei

a-deus

(silenciado em tantos cantos que não cantávamos)
a cantar por si com tanta voz de silêncio

de beijo

nunca entanto tantos até beijar-se um único:
o que deixaste em mim p’ra ser a minha boca


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Horizonte concreto


Seu Juca Sem Fio

Intangível é
todo horizonte
enquanto eu conto
meus alqueires e alqueires
de tua presença
em mim
sem ti

minhas léguas e léguas
percorridas
ao longo e ao lombo
da sombra do meu cavalo,

o nada de tudo que não serei
enquanto em vão tento deixar
para trás
meus sóis e tuas luas a nascer,
para trás
teus sóis e minhas luas a se pôr,

a cada cedo e a cada tarde menos
para trás
no ainda único horizonte concreto:
o que delimita o mar dos teus braços
e todos os sonhos que eram nossos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eu não



este eu aqui que te fala aí
não sou eu, não é nada meu
se finge de mim para escapar de mim
só larga de mim quando adormece em mim
 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Volte


. . . . . Volte

. . . . . Não precisa mais temer a minha liturgia de picadeiro:
. . . . . o meu desprendimento em virar capacho ou cometas
. . . . . e meus silêncios colorais colhidos no sono da passarada

. . . . . Volte

. . . . . Não mais serei o homem dos sete instrumentos e um receio
. . . . . (que renega os sete e ainda toda possibilidade do impossível)
. . . . . nem mais o malabarista de mal-amares dos malas de bares

. . . . . Volte

. . . . . E entregarei a Deus toda a culpa do menino que prevaricava
. . . . . durante a missa levantando até o sexo a fantasia das santas
. . . . . e ao Diabo a memória dos doces pecados por elas prometidos

. . . . . Volte

. . . . . Pois serei somente a sede de água tépida que só sacia em seus
. . . . . mares bipolares tropicalizados por meus mergulhos de cabeça
. . . . . tronco e membros d’alma em brasa para sempre desde que você

. . . . . Volte

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estofo

.
Trinca estripa tritura desintegra
este trambolho que me corrói o peito,
meu lastro
de galeão naufragado na montanha,
tão cândido carcinoma no seio
da pedra
quanto brutal espinha no nariz
da flor.
.
Trinca estripa tritura desintegra
toda dor que não me doa bem fundo,
qualquer disposição de me queixar
ao guarda à mãe ao bispo porém nunca
ao Diabo.
.
Trinca estripa tritura desintegra
a tua recompensa, louco Amor:
a provação de carregar por mim
meu oco
estofamento de fome que mofa
passo de passarinho,
samba de sambambaia,
vôo de vozes avozinhas
e a bem lambida nua libido lua
do sol.

sábado, 9 de abril de 2011

Sombrio como a luz


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . "A pé e de coração leve,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . lanço-me à estrada aberta,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Saudável, livre, o mundo à minha frente,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . O chão à minha frente, vasto e sombrio,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . levando-me aonde eu bem queira."

. . . . . . . . . . . . . Afoot and light-hearted, I take to the open road,
. . . . . . . . . . . . . Healthy, free, the word before me,
. . . . . . . . . . . . . The long brow path befome me, leading wherever I choose.

\ô/ . . . .

Traduzi esta primeira estrofe do longo poema Song of the Open Road, que integra o mais famoso livro de Walt Whitman, Leaves of Grass. Para me animar a prosseguir no trabalho, mostrei-a ao Teophanio Lambroso, que comentou, com a sutileza costumeira: "Por que diabos você tem de ver escuridão em tudo, seu bacurau pacóvio?"

(Não reparem, tio Teo é assim mesmo. Acha o luar, por exemplo, uma pobreza: "Coisa de quem compra lâmpadas de 40 watts porque não precisa ler à noite. A lua é o sol dos analfabetos.")

.