Corujas e morcegos

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sábado, 14 de setembro de 2013

O cheiro da dor



Morrer de amor
morrerei ainda
(disposto, estou)
muitas outras vezes
tantas ou bem mais
do que há séculos
venho morrendo

Não me doi a dor
da não correspondência
Não me dói a dor
de antever o fracasso
Não me doi a dor
lancinante da perda

Minhas mortes
de amor não doem
nem pela exposição
de tanto cadáver meu
aos olhos do mundo

O que me dói – e muito
é esse cheiro pútrido
que eles exalam hoje
e decerto ainda (aposto)
além, muito além
da derradeira morte

terça-feira, 16 de abril de 2013

Concepção




                   Para Tânia Contreiras e Leonardo B. 

Com quantas contas me conta
teu rosário de dor e rosas,
à minha espera em silente cio?

Por que ardores me chamas
das profundezas que afloram
oceânicos vulcões de sangue?

A que final me destinas
em teu ciclo de incêndios
para os quais me concebeste?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma mulher

.



Uma mulher que seja
a voz e o sentido do mar
revolto que me envolve,
mesmo e principalmente
quando eu estiver só.

Uma mulher que saiba
cerzir a minha alma rota
com fogos de arrepio;
que creia, sem dúvidas,
na minha descrença;
que espere, que propicie
luz à minha desesperança.

Uma mulher sem adjetivos
para o que sinto e sou:
que me queira por inteiro,
sem jamais me comparar
a ninguém – nem mesmo
e mormente àquele que,
ontem ou até um segundo atrás,
me foi.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Desanatomia



. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Teu corpo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . na minha cama
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . não é o corpo que tens.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Teu corpo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . na minha alma
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . não é o corpo que toco.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Meu corpo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . entre os teus braços
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . entre os teus seios
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . entre as tuas coxas
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . entre os teus lábios
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . entre as tuas nádegas,

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Meu corpo
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . dentro e fora de ti
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . é só o aríete e o arauto
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . dos descobrimentos
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . do teu corpo em construção
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . na desconstrução de mim.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Onde?


Onde riscas o céu como
brilho do seu onde olhas
tanto mel quando bebes
um cometa que sabe
aluar porque sonhas
mar onde raios estás
como luz onde breu
como fogo onde apagas
todo chão onde voas
feito som onde sou
quando estás?

sexta-feira, 16 de março de 2012

Afeto de armar


Que alguém (inclusive eu?) poderia musicar.  .
 
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Em que hora nós deixamos de sentir
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Esse chão que nossos pés nunca pisaram
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Voando assim por entre sonhos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Remansos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Que o tempo foi plantando pelas nuvens
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Tontas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Como a vida a nossos pés?

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Por que espero que entendas o que sinto
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Me arrastando em teu deserto de palavras
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Catando e ouvindo tuas conchas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Em vão
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Me prendendo e cantando tuas fugas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Longas
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Infinitas ao eterno?

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Como esperas que eu entenda o que sentes
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Se me apanhas nesse afeto de armar
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Quebra-caba de assombros
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . E brancos
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Indo em frente e me deixando em teus refúgios
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Onde
.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  . Só se abriga o que não és? 

domingo, 11 de março de 2012

Dono


. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  Para a mulher que me quiser musicar e cantar

. . . . . . . . . . . . . . .  Se eu mentir
. . . . . . . . . . . . . . .  Acredita em mim
. . . . . . . . . . . . . . .  Estarei sendo sincera
. . . . . . . . . . . . . . .  Tudo
. . . . . . . . . . . . . ..   Que eu sonho inventar
. . . . . . . . . . . . . . .  Pra nós dois será assim:
. . . . . . . . . . . . . . .  A verdade que esperas
. . . . . . . . . . . . . . .  Dono
. . . . . . . . . . . . . . .  Desse avesso amor que sinto.

. . . . . . . . . . . . . . .  Se eu fingir
. . . . . . . . . . . . . . .  Que não tô a fim
. . . . . . . . . . . . . . .  Vem e toma o que quiseres
. . . . . . . . . . . . . . .  Mudo
. . . . . . . . . . . . . . .  Como esse teu olhar
. . . . . . . . . . . . . . .  De me ver além de mim
. . . . . . . . . . . . . . .  E acalmar meus infernos
. . . . . . . . . . . . . . .  Dono
. . . . . . . . . . . . . . .  Desse falso amor que finjo.
 

sábado, 21 de janeiro de 2012

De bicicleta

 
Enquanto tu descias ruas
e avenidas sem horizontes
para mim, como tanto beco
que lhe trouxe meu caminhar,

não pude ver a bicicleta
em que seguias, soberana,
como num trono pedalável
ante o qual eu só existisse

de joelhos, de mãos e de cara
no chão que tentei ser na vida
por ti criada para seguirmos
até muito além do horizonte.

E nenhuma vez pedalaste
pelos caminhos que aprendi,
a me negar que rumo fosse
qualquer rumo já conhecido.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Breve inventário anatômico



Este fígado em frangalhos é meu.
Nem mesmo de vista o conheço,
mas reconheço a dor e as vezes
do bico cravado dos abutres.

Minhas, estas asas de coração.
Nunca as vi, nunca o vi voar,
porque cegou-me sempre
toda paixão que me viveu.

Este mingau derramado, meu cérebro,
poça de pensamentos impensáveis,
máxima fortuna amealhada
que ninguém quis ouvir e cobiçar.

Meus, estes grandes lábios vulvares,
sombra e bainha do feminino aríete
que Deus não quis e o Diabo me deu
para ser fêmea cada vez que fui macho.

E ainda estas minhas mãos cheias
do vasto vazio escrito por meus pés
enquanto eu garimpava mundos e fundos
no caos dos corpos do meu corpo.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A dança dos tangarás



“Eu queria ser um avestruz/
Um monte de passarinhos”

Simone Guimarães

Tem coisa mais linda
que mulher feia
quando lambuza a gente
de desejo e paixão?

Essas deusas de unhas e asas
e estrelas bem aparadas
fazem de mim, esse avestruz
metido a fênix, uma revoada
de passarinhos multicoloridos.

Tangarás, incontáveis tangarás
disputando dentro de mim
a fêmea desgraciosa que vem
toda vez que eles, despidos
do preconceito de enfeitar-se,
dançam, dançam, dançam...
até que um deles conquiste
o pequeno útero que haverá
de tragá-lo inteiro, bem fundo,
até o coração da vida.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Das vísceras das palavras



Gosto da palavra astrolábio
tanto quanto abomino a palavra lágrima,

mas disseco uma e outra com a mesma
disciplina indisciplinada das crianças.

É assim com cada palavra que me toca,
em abraço ou em atropelamento.

Toda miséria, todo esplendor da vida
habitam as vísceras das palavras.

Da pieguice do pâncreas da lágrima
posso extrair miríades de estrelas:

enzima vital para o miolo e o coração
de todos os meus astrolábios.
.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Desaforismos - II


1/

Se o homem tivesse asas, seríamos todos canários, saíras, colibris... – exceto alguns milhares de abutres, os mesmos de sempre, predadores naturais dos nossos vôos, com ou sem asas.

\2

O grande amor da nossa vida só pode revelar-se, nítido e insofismável, a partir do instante em que de vez partimos.

3/

Esqueci o poema do Kavafis, mas sei que seus versos já estavam escritos em mim quando a primeira noite me chegou com suas promessas, com sua sedução irresistível, com a pulsação mais intensa e constante em toda a minha vida.

\4

A espécie humana ainda existe graças à pouca consciência ecológica das serpentes, dos escorpiões, dos crocodilos, dos vírus, das bactérias...

5/

O melhor amigo não é o que ouve as nossas palavras, mas o que respeita a nossa pontuação.

\6

Eu não sou só espinhos: sou pétalas também, certo? É insuportável essa discriminação contra nós, cactos.

7/

Você já imaginou juntar todo o dinheiro do mundo e fazer:

(...) uma montanha, a mais alta do planeta, que teria na base uma riqueza incomensurável e, no cume, uns trocadinhos?

(...) um oceano em que muitos poderiam se afogar sob aplauso (ou vaia) dos demais?

(...) a mais gloriosa fogueira de todos os tempos?

\8

Não perca o seu tempo comigo. Encontre o meu – e poderemos dividi-lo para multiplicá-lo.

\ô/
 
Mais Desaforismos, aqui.
 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

tanto tantos



da sombra

(de nossos tantos corpos sempre um só) deitada
por tanta luz de tardes, noites e manhãs

ao medo

de que a mim tu me afogasses de tanta sede
do quanto tantas vezes em ti eu virei mar

de sangue

que azul verteste a cada mês por tantas luas
com tanto filho teu a que neguei o sol e dei

a-deus

(silenciado em tantos cantos que não cantávamos)
a cantar por si com tanta voz de silêncio

de beijo

nunca entanto tantos até beijar-se um único:
o que deixaste em mim p’ra ser a minha boca