Corujas e morcegos

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terça-feira, 16 de abril de 2013

Concepção




                   Para Tânia Contreiras e Leonardo B. 

Com quantas contas me conta
teu rosário de dor e rosas,
à minha espera em silente cio?

Por que ardores me chamas
das profundezas que afloram
oceânicos vulcões de sangue?

A que final me destinas
em teu ciclo de incêndios
para os quais me concebeste?

domingo, 25 de setembro de 2011

Elas


Para Marcantonio

O chato de ser ateu
e morar somente
com a minha mania

é não ter quem mande
calar a boca quando falo
para as paredes frias.
 
O que me salva são
as vozes, 
. . . . . .  . . . . . . incontroláveis,
da minha esquizopoesia.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Asas de fruto do mar



Seu Juca Sem Fio *

Quem é de andar... anda,
anda com ou sem as pernas,
que o único entrave é o talho nas
rneas d’alma, mal querência do fio
do nefando horizonte comum.

Por isso, poucos andam, de fato,
embora muitos pensem que sim,
que andam, que caminham, que vão
rumo aos rumos não-circulares
vedados a eles, pobre diabos que
rodam apenas a passo mecânico,
ponteiros de relógio que são.

Ah, eles nem sabem onde pisam,
mas preferem o cimento ao barro
e o asfalto ao paralelepípedo.
Não sabem que qualquer chão é caminho
de seda, tramada pelos raios do sol;
de veludo, urdido pelo luar, pelos estelares;
ou de algodão, das nuvens quando pousam.

Quem anda mesmo encontra o chão
e, no chão, até o que é dos ares e das águas.
Como essa moça que outro dia eu vi menina,
a saltitar pelas areias do céu de Bangu
e a me gritar, bem lá da esquina
de Vega com Aldebarã: – Ei, seu moço,
aceita umas asas de fruto do mar?

Eu sorri, e lá veio ela atrás de mim,
a me chover, por mais de légua, légua e meia,
uma garoa luminosa infinita de conchinhas
que catava com os olhos alumbrados
e pelo coração cuspia neste mundo.

\ô/

  • * Seu Juca Sem Fio é um andarilho da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Este poema foi escrito especialmente para os 18 anos de Raissa Medeiros e publicado (não na íntegra, como agora aqui) no blog desinformação seletiva, em postagem que reuniu autores como António Cabrita, Ana Jácomo, Assis Freitas, Marcantonio, Jorge Pimenta, Betina Moraes, Cris de Souza, Rita Santana, Bípede Falante, Paulinho Saturnino, Ira Buscacio, Suzana Guimarães, Jenny Paulla, Pólen Radioativo, Patricia Gonçalves, Marcel Zanner ... e até Wilden Barreiro!  Foi um prazer e uma honra participar desta belíssima homenagem, luxuosamente editada e ilustrada por Tuca Zamagna e seus três asseclas. Confiram, aqui.
  •  

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Desaforismos - II


1/

Se o homem tivesse asas, seríamos todos canários, saíras, colibris... – exceto alguns milhares de abutres, os mesmos de sempre, predadores naturais dos nossos vôos, com ou sem asas.

\2

O grande amor da nossa vida só pode revelar-se, nítido e insofismável, a partir do instante em que de vez partimos.

3/

Esqueci o poema do Kavafis, mas sei que seus versos já estavam escritos em mim quando a primeira noite me chegou com suas promessas, com sua sedução irresistível, com a pulsação mais intensa e constante em toda a minha vida.

\4

A espécie humana ainda existe graças à pouca consciência ecológica das serpentes, dos escorpiões, dos crocodilos, dos vírus, das bactérias...

5/

O melhor amigo não é o que ouve as nossas palavras, mas o que respeita a nossa pontuação.

\6

Eu não sou só espinhos: sou pétalas também, certo? É insuportável essa discriminação contra nós, cactos.

7/

Você já imaginou juntar todo o dinheiro do mundo e fazer:

(...) uma montanha, a mais alta do planeta, que teria na base uma riqueza incomensurável e, no cume, uns trocadinhos?

(...) um oceano em que muitos poderiam se afogar sob aplauso (ou vaia) dos demais?

(...) a mais gloriosa fogueira de todos os tempos?

\8

Não perca o seu tempo comigo. Encontre o meu – e poderemos dividi-lo para multiplicá-lo.

\ô/
 
Mais Desaforismos, aqui.
 

terça-feira, 10 de maio de 2011

mar da montanha


                                                                                         Seu Juca Sem Fio

como forma que não vira fórmula,
como a idéia esvoaçante que pousa,
como um sol infinito que se põe no bolso,
como doçura que nem depois de finda azeda,
como o belo que só envelhece ante olhos enrugados,
como flor que ceifada da planta rebrota na água,
como seixo que andarilha pelo leito dos rios:
contra a corrente, sem polimento, rumo
à descoberta do mar na montanha.

Deus



Para Aline Chaves . .

Eu vou ali
mas volto 
Vou ali mas
volto acolá

Sou sempre
sempre sim
sempre não

Deus que sou
e não sou de
mim em mim

\ô/

A ilustração é do artista plástico e designer Hélio Jesuíno (aqui).


terça-feira, 26 de abril de 2011

Expediente poético



. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Passa das oito da manhã
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta liga toda luz e sai
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Passa uma adolescente às lágrimas
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta estende lenço e guarda-chuva

. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Um homem dá bom-dia aos cães
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta pede ao sol uns picolés
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Ambulâncias duelam aos gritos
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta cura silêncios quebrados

. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pega ladrão, gritam na esquina
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta prende seu bolso vazio
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Pega fogo na peixaria
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta jorra cardumes de mar

. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  Mendigos almoçam no lixo
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta tem fome de não comer
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Goiabadas abraçam queijos
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta lambe os beiços da loucura

. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Duas e pouco e ninguém mais quer
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta quer muito ser três e tanto
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Três é de mais, dois é que é bom
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta vai de quatro a três por dois

. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Avermelha cansada a tarde
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta prossegue azul da manhã
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Desce o pano do palco diurno
. . . . . . . . . .. . . . . . . .. . . . . ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . o poeta aplaude o começo no fim
.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Desaforismos



“Quem tem o que dizer . .
diz. ..
Quem não tem, fala de. .
si.” . .
Tuca Zamagna *. .

1/

O lado positivo de hoje estar
em extinção o cinema de rua
é que preserva-se o ambiente
dos títulos psico-poluentes
que os tradutores inventam.

\2

Somos recicláveis
de várias formas
enquanto vivos.
Mortos, nem tanto.
Se enterrados,
damos bom adubo;
se cremados, poeira
para o mundo espanar
e esquecer – se alguma
ivete não der de levantá-la.

3/

Somos biodesagradáveis,
porém não biodegradáveis.
O que degrada-se da alma
não é bio: não é todo, não é nós.
O que degrada-se da carne,
lixo lançado à cova,
já não somos nós.

\4

Essa tal de auto-estima
nasceu das fezes do tempo
em que não carecia ser-se
tão parvo quanto hoje se é
para viver uma vida fútil.

5/

No futuro, todo
minuto será famoso.
para quinze durantes.

\ô/

* Na epígrafe, o Tuca incorpora, com a naturalidade de um pai-de-santo competente, o espírito (encosto?) que busco materializar nestes desaforismos. Ao submeter a pequena pérola à opinião de uma amiga, ele ouviu o comentário a meu ver consagrador: “Mas Clarice Lispector, Fernando Pessoa e outros grandes falam de si quase o tempo todo!”  E o Tuca, paciente e didático, propôs: “Me aponte um texto de um deles que comece, por exemplo, assim: ‘Eu hoje tive um dia incrível, sabe, gente? Eu acordei, eu escovei os dentes, eu lavei o rosto, eu fiz cocô...’”

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eu não



este eu aqui que te fala aí
não sou eu, não é nada meu
se finge de mim para escapar de mim
só larga de mim quando adormece em mim
 

domingo, 17 de abril de 2011

Nu, de fato



Despir o luso facto qual fato,
qual vestir uma camisa de força
rota pela supressão dos hifens

Vestir o que não mais acontece
de facto, mas de direito, como
se de esquerdo não fosse a lei
maior que o direito de se usar
um fato que seja somente fato
.e não facto, ou o de se conservar
inta.(c) .to
o c do próprio cu sob o fato
 .

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Espiral

  .
Uma espiral é:


Uma estrutura óssea que, com nojo de penetrar no molusco a que pertence, opta por enrodilhar-se em torno de sua carne gosmenta.

Wilden Barreiro


“Subproduto inteiriço da casca auto-descascada a canivete
por uma laranja egocêntrica.”

Anga Mazle


“Uma linha reta que perdeu-se de si e anda em círculos, cada vez 
mais distante do que foi e mais próxima do que não pode ser.”

Tuca Zamagna


“A alma metálica dos relógios, brinquedos e seres humanos de corda.”

Elza Magna


 “A representação radiográfica do redemoinho de sentimentos 
que mora de favor no coração de toda mulher.”

Teophanio Lambroso


“Um soluço e a vontade de ficar mais um instante...
debaixo dos caracóis dos seus cabelos.”

Roberto Carlos


“Qualquer curva plana gerada por um ponto móvel que gira 
em torno de um ponto fixo, ao mesmo tempo que dele se 
afasta ou se aproxima segundo uma lei determinada.”

Aurélio Buarque de Holanda


“Uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.”

Bernardo Soares / Fernando Pessoa

\ô/

Obrigado ao Teophanio, que sugeriu esta postagem coletiva, mandou a sua definição, cobrou a de seus parceiros do blog Desinformação Seletiva e ainda lembrou-me da definição do Roberto Carlos.
Os leitores que quiserem dar a sua definição para espiral (não é difícil, até o Aurélio conseguiu fazer uma que não é ruim de todo!), por favor, façam-no e enviem para mim.
O assunto, vital para o futuro da humanidade, justifica plenamente uma segunda postagem. E até mesmo, se a adesão for expressiva, a publicação de uma “Antologia de Definições para Espiral”.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Volte


. . . . . Volte

. . . . . Não precisa mais temer a minha liturgia de picadeiro:
. . . . . o meu desprendimento em virar capacho ou cometas
. . . . . e meus silêncios colorais colhidos no sono da passarada

. . . . . Volte

. . . . . Não mais serei o homem dos sete instrumentos e um receio
. . . . . (que renega os sete e ainda toda possibilidade do impossível)
. . . . . nem mais o malabarista de mal-amares dos malas de bares

. . . . . Volte

. . . . . E entregarei a Deus toda a culpa do menino que prevaricava
. . . . . durante a missa levantando até o sexo a fantasia das santas
. . . . . e ao Diabo a memória dos doces pecados por elas prometidos

. . . . . Volte

. . . . . Pois serei somente a sede de água tépida que só sacia em seus
. . . . . mares bipolares tropicalizados por meus mergulhos de cabeça
. . . . . tronco e membros d’alma em brasa para sempre desde que você

. . . . . Volte