Corujas e morcegos

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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cegos




Os meus sonhos no teu sono
tuas vísceras no meu medo
nosso ímpeto à nossa espera

Tua raiva em meus gritos
meus silêncios em teu tédio
nosso adeus à nossa volta

Todo desejo pelo avesso
cada querer no sem querer
o encontro em nossas fugas

Cegos que fingem não ver.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Breve inventário anatômico



Este fígado em frangalhos é meu.
Nem mesmo de vista o conheço,
mas reconheço a dor e as vezes
do bico cravado dos abutres.

Minhas, estas asas de coração.
Nunca as vi, nunca o vi voar,
porque cegou-me sempre
toda paixão que me viveu.

Este mingau derramado, meu cérebro,
poça de pensamentos impensáveis,
máxima fortuna amealhada
que ninguém quis ouvir e cobiçar.

Meus, estes grandes lábios vulvares,
sombra e bainha do feminino aríete
que Deus não quis e o Diabo me deu
para ser fêmea cada vez que fui macho.

E ainda estas minhas mãos cheias
do vasto vazio escrito por meus pés
enquanto eu garimpava mundos e fundos
no caos dos corpos do meu corpo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ninguém


 
Seu Juca Sem Fio

O coração apagava cada verdade que vinha do mundo
porque as mãos colhiam sementes chocas para plantar estrelas.

Elefantes, carregava-os nas costas até virarem borboletas,
para oferecer aos pés lonjuras caudalosas de incertezas.

Do sexo, pendiam fieiras de risos, clarins e atabaques,
em desacato ao silêncio de morte que ao gozo sucedia.

Os olhos liam de trás para frente todas as palavras,
e eis que todos os sentidos chegavam sempre ao princípio.

O fim, a boca nunca o pronunciou nem haveria de provar:
esse lá merecia crédito com parte alguma de um ninguém?
.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Alma Van Gogh



Meus olhos, mais que as unhas,
precisam ser aparados regularmente,
porque o defunto que um dia serei
costuma tomar como suas
paisagens minhas que deixo,
levado pela emoção,
transbordar da vida.

Me faço vermes, então,
e devoro esse corpo inerte
que – junto com o meu próprio ­–
ladeiam-me a alma como orelhas.

Que ele exista desde já, se lhe apraz,
mas só por breves momentos:
enquanto vida houver,
minha alma será Van Gogh.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A porta do Inferno



Não nego o teu direito
de matar
o tempo, o espaço,
a realidade, os sonhos,
a ti mesmo
e a qualquer outro ser,
inclusive a mim.

Quem bate à porta do Inferno?

Não serei eu o teu juiz,
como não sou o teu guardião.
Sou, talvez, só um irmão,
fruto do incesto entre o teu senso
e a tua chance de pegar ou largar.

Quem bate à porta do Inferno?

És, enquanto fores, o previsto
maquiado pelo imprevisível;
o desesperado esperado
que pode chegar,
a qualquer momento,
de lugar nenhum, sabendo
aonde quer ou não quer chegar.

Quem bate à porta do Inferno?

Se alguém bate
e não és tu,
que apenas ouve as batidas
a ressoar aí dentro,
quem sabe então não sou eu
o que bate à porta do Inferno?
Seja lá quem for,
é melhor abrir logo:
pode haver a dor, o cansaço, o tédio
e seus respectivos anseios.
Vamos lá:
o dever nenhum
e as chamas (n).os esperam.
.

domingo, 1 de maio de 2011

Ela, às vezes eu



I

As horas, minha sombra
sempre diz com precisão.
Mas ouvidos só lhe dou
quando a piso por inteiro:
ao meio-dia em ponto.


II

Sombra de mim, és sobra
do outro que sempre sou
a cada passo que dou
no que de mim sossobra.


III

Fotografam-me de pé
e revelam-me no chão.
Enquadram-me sentado,
na foto eis-me no chão.
Deitado, sim, é que surjo
lógico, na horizontal,
embora justo embaixo

de mim que lá não estou.

Mas no espelho, a sós
comigo, sou onde estou,
ainda que seja ainda
minha maldita sombra
que no aço se estampa.

Somente em radiografias
saio sempre bem: revela-se
o exterior do meu próprio
eu, livre dessa sombria

víscera que me persegue.
.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Horizonte concreto


Seu Juca Sem Fio

Intangível é
todo horizonte
enquanto eu conto
meus alqueires e alqueires
de tua presença
em mim
sem ti

minhas léguas e léguas
percorridas
ao longo e ao lombo
da sombra do meu cavalo,

o nada de tudo que não serei
enquanto em vão tento deixar
para trás
meus sóis e tuas luas a nascer,
para trás
teus sóis e minhas luas a se pôr,

a cada cedo e a cada tarde menos
para trás
no ainda único horizonte concreto:
o que delimita o mar dos teus braços
e todos os sonhos que eram nossos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Eu não



este eu aqui que te fala aí
não sou eu, não é nada meu
se finge de mim para escapar de mim
só larga de mim quando adormece em mim
 

domingo, 17 de abril de 2011

Nu, de fato



Despir o luso facto qual fato,
qual vestir uma camisa de força
rota pela supressão dos hifens

Vestir o que não mais acontece
de facto, mas de direito, como
se de esquerdo não fosse a lei
maior que o direito de se usar
um fato que seja somente fato
.e não facto, ou o de se conservar
inta.(c) .to
o c do próprio cu sob o fato
 .

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estofo

.
Trinca estripa tritura desintegra
este trambolho que me corrói o peito,
meu lastro
de galeão naufragado na montanha,
tão cândido carcinoma no seio
da pedra
quanto brutal espinha no nariz
da flor.
.
Trinca estripa tritura desintegra
toda dor que não me doa bem fundo,
qualquer disposição de me queixar
ao guarda à mãe ao bispo porém nunca
ao Diabo.
.
Trinca estripa tritura desintegra
a tua recompensa, louco Amor:
a provação de carregar por mim
meu oco
estofamento de fome que mofa
passo de passarinho,
samba de sambambaia,
vôo de vozes avozinhas
e a bem lambida nua libido lua
do sol.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Faca


 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  O brilho da lâmina
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  é tão forte quanto
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  a vontade do cabo.

 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  O grito da ponta
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  da lâmina é mais
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   agudo e profundo
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  que o do fio de corte.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   O vulto que traga
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   por inteiro a lâmina  
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   emenda o seu fim
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   ao destino do cabo.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   É escuro e deserto
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   o silêncio da faca.

.

domingo, 3 de abril de 2011

Não me diga o que vê


. . . . . . . . . . . . . . Eis meu rosto, meus traços
. . . . . . . . . . . . . . vedados ao meu próprio olhar;
. . . . . . . . . . . . . . meu estar em mim, tão-somente
. . . . . . . . . . . . . . diante do espelho do olhar alheio,
. . . . . . . . . . . . . . meu estar perdido na escuridão
. . . . . . . . . . . . . . que não semeei; minha sorte
. . . . . . . . . . . . . . de condenado a esta vida tosca,
. . . . . . . . . . . . . . planejada e erigida por um deus
. . . . . . . . . . . . . . de pedra, uivos e esquecimento,
. . . . . . . . . . . . . . ébrio sátiro que habita e consome
. . . . . . . . . . . . . . a consciência que me imputou
. . . . . . . . . . . . . . como asas que não voam, como
. . . . . . . . . . . . . . caminhos que não terão rastros.
 .