Corujas e morcegos

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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cegos




Os meus sonhos no teu sono
tuas vísceras no meu medo
nosso ímpeto à nossa espera

Tua raiva em meus gritos
meus silêncios em teu tédio
nosso adeus à nossa volta

Todo desejo pelo avesso
cada querer no sem querer
o encontro em nossas fugas

Cegos que fingem não ver.



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Uma mulher

.



Uma mulher que seja
a voz e o sentido do mar
revolto que me envolve,
mesmo e principalmente
quando eu estiver só.

Uma mulher que saiba
cerzir a minha alma rota
com fogos de arrepio;
que creia, sem dúvidas,
na minha descrença;
que espere, que propicie
luz à minha desesperança.

Uma mulher sem adjetivos
para o que sinto e sou:
que me queira por inteiro,
sem jamais me comparar
a ninguém – nem mesmo
e mormente àquele que,
ontem ou até um segundo atrás,
me foi.

terça-feira, 26 de junho de 2012

pássaros para sempre

  
. . . . . . . . . . . . meus pés descalços
. . . . . . . . . . . . já não rejeitam a lama frígida
. . . . . . . . . . . . que os enrugará cada dia mais
. . . . . . . . . . . . nem as pedras que os esfolarão
. . . . . . . . . . . . até que deles nada mais reste
. . . . . . . . . . . . no asfalto ardente que fritará suas almas (
. . . . . . . . . . . . sim, há pés com alma)

. . . . . . . . . . . . meus pés descalços apenas sonham
. . . . . . . . . . . . me sonhar de cabeça para baixo
. . . . . . . . . . . . eles nas nuvens, altíssimas nuvens
. . . . . . . . . . . . calçando sapatos que os ventos
. . . . . . . . . . . . para espantar a solidão tricotaram
. . . . . . . . . . . . com penas perdidas pelas aves migratórias,
. . . . . . . . . . . . generosas, distraídas, desapegadas
. . . . . . . . . . . . de toda dor que ficou para trás, bem para trás
. . . . . . . . . . . . de cada mínima pluma que um dia
. . . . . . . . . . . . haverá de passar, empassarada
. . . . . . . . . . . . no compasso compassivo dos passos
. . . . . . . . . . . . de meus pés, meros passageiros, alvos de leveza
. . . . . . . . . . . . pássaros para sempre
. . . . . . . . . . . . a teus pés, esses teus pés
. . . . . . . . . . . . caminhantes de aerovias no azul
. . . . . . . . . . . . infinito enquanto voas a meu lado

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A porta do Inferno



Não nego o teu direito
de matar
o tempo, o espaço,
a realidade, os sonhos,
a ti mesmo
e a qualquer outro ser,
inclusive a mim.

Quem bate à porta do Inferno?

Não serei eu o teu juiz,
como não sou o teu guardião.
Sou, talvez, só um irmão,
fruto do incesto entre o teu senso
e a tua chance de pegar ou largar.

Quem bate à porta do Inferno?

És, enquanto fores, o previsto
maquiado pelo imprevisível;
o desesperado esperado
que pode chegar,
a qualquer momento,
de lugar nenhum, sabendo
aonde quer ou não quer chegar.

Quem bate à porta do Inferno?

Se alguém bate
e não és tu,
que apenas ouve as batidas
a ressoar aí dentro,
quem sabe então não sou eu
o que bate à porta do Inferno?
Seja lá quem for,
é melhor abrir logo:
pode haver a dor, o cansaço, o tédio
e seus respectivos anseios.
Vamos lá:
o dever nenhum
e as chamas (n).os esperam.
.