Corujas e morcegos

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ninguém


 
Seu Juca Sem Fio

O coração apagava cada verdade que vinha do mundo
porque as mãos colhiam sementes chocas para plantar estrelas.

Elefantes, carregava-os nas costas até virarem borboletas,
para oferecer aos pés lonjuras caudalosas de incertezas.

Do sexo, pendiam fieiras de risos, clarins e atabaques,
em desacato ao silêncio de morte que ao gozo sucedia.

Os olhos liam de trás para frente todas as palavras,
e eis que todos os sentidos chegavam sempre ao princípio.

O fim, a boca nunca o pronunciou nem haveria de provar:
esse lá merecia crédito com parte alguma de um ninguém?
.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Alma Van Gogh



Meus olhos, mais que as unhas,
precisam ser aparados regularmente,
porque o defunto que um dia serei
costuma tomar como suas
paisagens minhas que deixo,
levado pela emoção,
transbordar da vida.

Me faço vermes, então,
e devoro esse corpo inerte
que – junto com o meu próprio ­–
ladeiam-me a alma como orelhas.

Que ele exista desde já, se lhe apraz,
mas só por breves momentos:
enquanto vida houver,
minha alma será Van Gogh.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A dança dos tangarás



“Eu queria ser um avestruz/
Um monte de passarinhos”

Simone Guimarães

Tem coisa mais linda
que mulher feia
quando lambuza a gente
de desejo e paixão?

Essas deusas de unhas e asas
e estrelas bem aparadas
fazem de mim, esse avestruz
metido a fênix, uma revoada
de passarinhos multicoloridos.

Tangarás, incontáveis tangarás
disputando dentro de mim
a fêmea desgraciosa que vem
toda vez que eles, despidos
do preconceito de enfeitar-se,
dançam, dançam, dançam...
até que um deles conquiste
o pequeno útero que haverá
de tragá-lo inteiro, bem fundo,
até o coração da vida.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ciranda de fogo


Para Adriana Araújo . . . . . . .
 
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . fogo para quem tem sede
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . sede para quem tem medo
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . medo para quem tem arma
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . arma para quem tem alma
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . alma para quem tem carne
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . carne para quem tem osso
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . osso para quem é cão

. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . gato para quem é rato
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . rata para quem é certo
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . erro para quem é cego
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . olhos para quem é mudo
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . vozes para quem é pouco
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . nada para quem é muito
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . tudo para quem tem fogo


domingo, 25 de setembro de 2011

Elas


Para Marcantonio

O chato de ser ateu
e morar somente
com a minha mania

é não ter quem mande
calar a boca quando falo
para as paredes frias.
 
O que me salva são
as vozes, 
. . . . . .  . . . . . . incontroláveis,
da minha esquizopoesia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Passos de bípede


Lelena Camargo*

Cúmulos! Tufos brancos acessíveis aos olhos à primeira vista. Nuvens de bom temperamento soltas no céu.

|oo/

As pessoas são o foco absoluto da minha energia, a matéria da minha curiosidade, do meu afeto e do sentido que dou a minha vida.

\oo|

Acho nocivo ao pensamento fazer parte de um rebanho. Os rebanhos costumam não ter senso crítico e esquecer do valor de quem não está neles ou é diferente. Em suma, prefiro me perder e arcar com a minha lã negra a ter de seguir um pastor e um cajado.

|oo/

Eu, às vezes, vejo a humanidade como um grande caldeirão de lixo. Um aglomerado perecível e confuso entre vaidades e competições. O que nos torna interessantes e valiosos ou não é se o lixo de cada um é reciclável e útil ou se é apenas mais um peso morto a intoxicar a natureza humana.

\oo|

O bom humor é um desintegrador de armas. (...) Ele é como um grande campo de força, como um vírus capaz de bloquear o inimigo, refazer o inimigo e até conquistá-lo.

|oo/

É só sentar no chão e ter um pouquinho de boa vontade que a alegria vem.

\oo|

Tenho a sensação que o facebook e o twitter atrapalham o universo dos blogs. (...) Nos blogs, podemos nos aprofundar. Assusta-me essa dinâmica de que não se pode mais parar para sentir e aprender de verdade. É fácil confundir a superficialidade dessas outras ferramentas com agilidade e conteúdo e dar-se por satisfeito.

|oo/

A poesia da vida está de mãos dadas com a prosa da vida bem embaixo do nosso nariz desde que a gente nasce. É pegar ou largar!

\oo|

Minha escrita é a organização do meu inconsciente e do meu consciente dentro de um território livre (...). Ela vem como uma hemorragia, as palavras surgem em um encadeamento veloz, mas o núcleo, a emoção do que está a ser traduzido, foi anteriormente investigado e compreendido por mim.

|oo/

Ler me aciona a vontade de existir. Escrever me faz existir.

\oo/

*Trechos da entrevista concedida pela escritora ao blog Roxo-violeta, aqui.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Primaveril

.

 
Está florida, primaveril
a planta dos meus pés,
a  lembrar-me que neles
levo,
sempre fértil, a terra firme,
por esse incessante oceano
de nuvens que percorro
tanto
quanto elas me percorrem.

sábado, 20 de agosto de 2011

Merreca roubada



Furtei, da lixeira digital do Tuca Zamagna, uns contos de réis. Ele viu, mas pouco ligou, exceto por me pedir que, caso quisesse postá-los, os atribuísse a autor desconhecido. Portanto, fiquem sabendo: os nanocontos abaixo são de autor desconhecido.
(Quem quiser conhecê-lo deve visitar o Desinformação Seletiva, blog do Tuca et caterva.)


Vantagem
A vantagem do cão que adotei sobre a criança que não quis ter é que ele não viverá o suficiente para me tratar como criança – nem como cão.

Herança
Dorme, meu filho, dorme. Vela-te a penumbra da minha pouca fé nos homens. Quando eu me for, herdarás sozinho toda a miséria do mundo.

Tempo
Quando andares, quando falares, quando te aventurares, quando envelheceres... envilecerás? Vendo-te o tempo que quiseres para responder.

Genealogia
Os gestos descoordenados de meu bebê embaralham-se com o Parkinson de meu pai, para traçar, com incrível clareza, minha descendência da minhoca.

Dotes
O assunto predileto de minha mulher, em qualquer roda, é o baita pau de nosso filho. Não condiz eu também me gabar do xerecão de nossa filha?

Não
O livro que não escrevi poupou a árvore que não plantei para o futuro do filho que não tive.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cão



O cão que late e vigia o destino do cão
O osso do cão que rói suas próprias presas
A sarna, as pulgas que lhe infernizam a vida

O medo, o medo infinito que rosna e ataca
desde sempre e por toda a eternidade:
a do cão sem dono ou a do dono cão
.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Das vísceras das palavras



Gosto da palavra astrolábio
tanto quanto abomino a palavra lágrima,

mas disseco uma e outra com a mesma
disciplina indisciplinada das crianças.

É assim com cada palavra que me toca,
em abraço ou em atropelamento.

Toda miséria, todo esplendor da vida
habitam as vísceras das palavras.

Da pieguice do pâncreas da lágrima
posso extrair miríades de estrelas:

enzima vital para o miolo e o coração
de todos os meus astrolábios.
.

sábado, 25 de junho de 2011

A Senhora dos Sonhos



O sonhador não acredita
que a noite desagüe no dia
e se apague e apague os sonhos.

O sonhador é senhor do tempo
enquanto o tempo permite
que seus sonhos sejam infinitos.

O sonhador só experimenta
parar de sonhar quando
do alto ecoa o choro da Suidara.

É lá, no oco dos telhados,
que a finitude do sonhar
é tecida em lágrimas pela não-deusa,

a criadora de tudo em nada,
a artífice da vida maior que
só pode ser vivida nos sonhos.
.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A porta do Inferno



Não nego o teu direito
de matar
o tempo, o espaço,
a realidade, os sonhos,
a ti mesmo
e a qualquer outro ser,
inclusive a mim.

Quem bate à porta do Inferno?

Não serei eu o teu juiz,
como não sou o teu guardião.
Sou, talvez, só um irmão,
fruto do incesto entre o teu senso
e a tua chance de pegar ou largar.

Quem bate à porta do Inferno?

És, enquanto fores, o previsto
maquiado pelo imprevisível;
o desesperado esperado
que pode chegar,
a qualquer momento,
de lugar nenhum, sabendo
aonde quer ou não quer chegar.

Quem bate à porta do Inferno?

Se alguém bate
e não és tu,
que apenas ouve as batidas
a ressoar aí dentro,
quem sabe então não sou eu
o que bate à porta do Inferno?
Seja lá quem for,
é melhor abrir logo:
pode haver a dor, o cansaço, o tédio
e seus respectivos anseios.
Vamos lá:
o dever nenhum
e as chamas (n).os esperam.
.