Corujas e morcegos

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Breve inventário anatômico



Este fígado em frangalhos é meu.
Nem mesmo de vista o conheço,
mas reconheço a dor e as vezes
do bico cravado dos abutres.

Minhas, estas asas de coração.
Nunca as vi, nunca o vi voar,
porque cegou-me sempre
toda paixão que me viveu.

Este mingau derramado, meu cérebro,
poça de pensamentos impensáveis,
máxima fortuna amealhada
que ninguém quis ouvir e cobiçar.

Meus, estes grandes lábios vulvares,
sombra e bainha do feminino aríete
que Deus não quis e o Diabo me deu
para ser fêmea cada vez que fui macho.

E ainda estas minhas mãos cheias
do vasto vazio escrito por meus pés
enquanto eu garimpava mundos e fundos
no caos dos corpos do meu corpo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O que viveu meia hora



Ser*

Carlos Drummond de Andrade  .  .

O filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
Faz-se por si mesmo.

*Em Claro Enigma.

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Anotações do poeta
(ambas assinadas por extenso)

I

Meu filho Carlos Flavio nasceu às 4 horas e 15 minutos do dia 21 de Março de 1927, segunda-feira. Deus o proteja em toda a sua vida.

21­ - III – 27  --  às 4 e 35 da tarde.

II

Meu filho Carlos Flavio morreu às 4 horas e 45 minutos do dia 21 de Março de 1927, segunda-feira

21­ - III – 27  --  às 10 horas da noite.

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O que Viveu Meia Hora*

Carlos Drummond de Andrade  .  .

Nascer para não viver
só para ocupar
estrito espaço numerado
ao sol-e-chuva
que meticulosamente vai delindo
o número
enquanto o nome vai-se autocorroendo
na terra, nos arquivos
na mente volúvel ou cansada
até que um dia
trilhões de milênios antes do juízo final
não reste em qualquer átomo
nada de uma hipótese de existência.

*Em A Paixão Medida.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ninguém


 
Seu Juca Sem Fio

O coração apagava cada verdade que vinha do mundo
porque as mãos colhiam sementes chocas para plantar estrelas.

Elefantes, carregava-os nas costas até virarem borboletas,
para oferecer aos pés lonjuras caudalosas de incertezas.

Do sexo, pendiam fieiras de risos, clarins e atabaques,
em desacato ao silêncio de morte que ao gozo sucedia.

Os olhos liam de trás para frente todas as palavras,
e eis que todos os sentidos chegavam sempre ao princípio.

O fim, a boca nunca o pronunciou nem haveria de provar:
esse lá merecia crédito com parte alguma de um ninguém?
.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Alma Van Gogh



Meus olhos, mais que as unhas,
precisam ser aparados regularmente,
porque o defunto que um dia serei
costuma tomar como suas
paisagens minhas que deixo,
levado pela emoção,
transbordar da vida.

Me faço vermes, então,
e devoro esse corpo inerte
que – junto com o meu próprio ­–
ladeiam-me a alma como orelhas.

Que ele exista desde já, se lhe apraz,
mas só por breves momentos:
enquanto vida houver,
minha alma será Van Gogh.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A dança dos tangarás



“Eu queria ser um avestruz/
Um monte de passarinhos”

Simone Guimarães

Tem coisa mais linda
que mulher feia
quando lambuza a gente
de desejo e paixão?

Essas deusas de unhas e asas
e estrelas bem aparadas
fazem de mim, esse avestruz
metido a fênix, uma revoada
de passarinhos multicoloridos.

Tangarás, incontáveis tangarás
disputando dentro de mim
a fêmea desgraciosa que vem
toda vez que eles, despidos
do preconceito de enfeitar-se,
dançam, dançam, dançam...
até que um deles conquiste
o pequeno útero que haverá
de tragá-lo inteiro, bem fundo,
até o coração da vida.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ciranda de fogo


Para Adriana Araújo . . . . . . .
 
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . fogo para quem tem sede
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . sede para quem tem medo
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . medo para quem tem arma
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . arma para quem tem alma
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . alma para quem tem carne
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . carne para quem tem osso
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . osso para quem é cão

. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . gato para quem é rato
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . rata para quem é certo
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . erro para quem é cego
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . olhos para quem é mudo
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . vozes para quem é pouco
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . nada para quem é muito
. . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . . . .   . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . tudo para quem tem fogo


domingo, 25 de setembro de 2011

Elas


Para Marcantonio

O chato de ser ateu
e morar somente
com a minha mania

é não ter quem mande
calar a boca quando falo
para as paredes frias.
 
O que me salva são
as vozes, 
. . . . . .  . . . . . . incontroláveis,
da minha esquizopoesia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Passos de bípede


Lelena Camargo*

Cúmulos! Tufos brancos acessíveis aos olhos à primeira vista. Nuvens de bom temperamento soltas no céu.

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As pessoas são o foco absoluto da minha energia, a matéria da minha curiosidade, do meu afeto e do sentido que dou a minha vida.

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Acho nocivo ao pensamento fazer parte de um rebanho. Os rebanhos costumam não ter senso crítico e esquecer do valor de quem não está neles ou é diferente. Em suma, prefiro me perder e arcar com a minha lã negra a ter de seguir um pastor e um cajado.

|oo/

Eu, às vezes, vejo a humanidade como um grande caldeirão de lixo. Um aglomerado perecível e confuso entre vaidades e competições. O que nos torna interessantes e valiosos ou não é se o lixo de cada um é reciclável e útil ou se é apenas mais um peso morto a intoxicar a natureza humana.

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O bom humor é um desintegrador de armas. (...) Ele é como um grande campo de força, como um vírus capaz de bloquear o inimigo, refazer o inimigo e até conquistá-lo.

|oo/

É só sentar no chão e ter um pouquinho de boa vontade que a alegria vem.

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Tenho a sensação que o facebook e o twitter atrapalham o universo dos blogs. (...) Nos blogs, podemos nos aprofundar. Assusta-me essa dinâmica de que não se pode mais parar para sentir e aprender de verdade. É fácil confundir a superficialidade dessas outras ferramentas com agilidade e conteúdo e dar-se por satisfeito.

|oo/

A poesia da vida está de mãos dadas com a prosa da vida bem embaixo do nosso nariz desde que a gente nasce. É pegar ou largar!

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Minha escrita é a organização do meu inconsciente e do meu consciente dentro de um território livre (...). Ela vem como uma hemorragia, as palavras surgem em um encadeamento veloz, mas o núcleo, a emoção do que está a ser traduzido, foi anteriormente investigado e compreendido por mim.

|oo/

Ler me aciona a vontade de existir. Escrever me faz existir.

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*Trechos da entrevista concedida pela escritora ao blog Roxo-violeta, aqui.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Primaveril

.

 
Está florida, primaveril
a planta dos meus pés,
a  lembrar-me que neles
levo,
sempre fértil, a terra firme,
por esse incessante oceano
de nuvens que percorro
tanto
quanto elas me percorrem.

sábado, 20 de agosto de 2011

Merreca roubada



Furtei, da lixeira digital do Tuca Zamagna, uns contos de réis. Ele viu, mas pouco ligou, exceto por me pedir que, caso quisesse postá-los, os atribuísse a autor desconhecido. Portanto, fiquem sabendo: os nanocontos abaixo são de autor desconhecido.
(Quem quiser conhecê-lo deve visitar o Desinformação Seletiva, blog do Tuca et caterva.)


Vantagem
A vantagem do cão que adotei sobre a criança que não quis ter é que ele não viverá o suficiente para me tratar como criança – nem como cão.

Herança
Dorme, meu filho, dorme. Vela-te a penumbra da minha pouca fé nos homens. Quando eu me for, herdarás sozinho toda a miséria do mundo.

Tempo
Quando andares, quando falares, quando te aventurares, quando envelheceres... envilecerás? Vendo-te o tempo que quiseres para responder.

Genealogia
Os gestos descoordenados de meu bebê embaralham-se com o Parkinson de meu pai, para traçar, com incrível clareza, minha descendência da minhoca.

Dotes
O assunto predileto de minha mulher, em qualquer roda, é o baita pau de nosso filho. Não condiz eu também me gabar do xerecão de nossa filha?

Não
O livro que não escrevi poupou a árvore que não plantei para o futuro do filho que não tive.